Então somos modernos, vivemos numa era
em que a individualidade é a valorizada e muito apreciada, todos querem ter o
tal sucesso pessoal, todo mundo tem um grande sonho, todos estão em busca de
uma grande realização, tudo agora depende unicamente de você mesmo, o sucesso é
reflexo de seus esforços. Esse é o pensamento predominante em grande parte das
pessoas nos tempos atuais, os tais tempos modernos, primeiramente eu, minhas
realizações. É um individualismo cruel, que chega a massacrar qualquer
possibilidade de construções conjuntas, o domínio sobre si é mais importante do
que demonstrar qualquer fraqueza.
Cadê as pessoas que procuram algo que seja bom para elas e para os outros? Cadê
aquelas pessoas que ainda acreditam no olhar? Parece que as pessoas não sabem
mais olhar nos olhos, tudo parece andar meio banalizado, é como se o olhar
tivesse-se desviado para outros lugares, distantes dos olhos. Será essa tal
modernidade, sinônimo de individualidade, um tempo onde as conexões são
basicamente físicas ou virtuais, extensões solitárias de si mesmo. Será que
passamos a entender os sentimentos como descartáveis? Usamos e jogamos fora,
sem essa de reciclar, apenas usou, e fim? Sem essa de conquistar, afinal
estamos tão ocupado escalando outros objetivos, que esquecemos que conexões
reais e duradouras também necessitam de empenho e interesse. Será que o
interesse se perdeu?
Está tudo tão banalizado, como se agora tudo fosse fácil demais, como se
demasiadamente fôssemos feitos para sermos usados uma única vez, sem olhar, sem
comprometimento, sem sentimento. Ninguém parece querer se conectar, parecem
preocupados em satisfazer seus desejos, talvez os mais sexuais, os mais
narcísicos... Será que nos conectamos com nosso próprio olhar de tanto nos
olhar no espelho, que perdemos a capacidade de buscar outros olhares?
Sabe aquele coração acelerado quando dos olhos se encontravam em meio o espaço
de maneira aleatória e simplesmente se conectam, será que isso não existe mais?
Será que estamos tão preocupados com a realização de nossos próprios desejos,
em nos satisfazer, que não nos preocupamos mais em nos conectar com ninguém?
Cadê aquela sensação de borboletas no estômago? Será que eu que tenho uma visão
muito romantizada no amor? Seria isso resultado de uma infância toda
influenciada pelos filmes de animação com finais felizes? Estamos fáceis
demais, disponíveis demais. Talvez seja a hora de repensar, mas essa liberdade
social está tão expandida, vai além do campo do amor, nos perdemos, vivemos
numa era de sentimentos descartáveis, parece que nos esquecemos da importância
de se criar lembranças, é como se tudo vivido a curto prazo, proporcionasse
mais prazer, do que uma história para a vida toda. Momentos agora não duram
tanto tempo, nada vai muito além de alguns instantes agora. Mas o que eu sei, é
que não estou disposto a fazer parte desse mundo descartável, não me sinto tão bem
comigo, assim sendo banalizado, jogado fora após cada uso.
Não é um admirável mundo novo, é um triste mundo frio, onde os
sentimentos são descartáveis, onde ninguém sabe seu nome, onde ninguém sabe a
cor de seus olhos, onde todo dia é de fato um novo dia, nada de passado, apenas
presente, sem futuro. O que será do futuro dos “nós”, se todos os “eu” vivem
agora esse mundo frio do imediatismo. Sentimentos descartáveis, não sei se é
para mim, só espero sobreviver a esse inverno.

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